sábado, outubro 14

Conformismo

Imaginemos um dos nossos melhores jovens recém-licenciados, carregado de espírito de iniciativa, que equaciona o futuro. Valerá a pena tornar-se empresário, ganhar em autonomia e liberdade, construir um futuro e antever a possibilidade de enriquecimento? Valerá a pena correr riscos?

Quem quer ser empresário em Portugal?, por João Caetano Dias, na Dia D de ontem.

Muitos portugueses, talvez por pertencerem ao país dos ei-los que partem, desenvolveram uma espécie de inconsciente colectivo e nostálgico que os faz sentir conectados a tudo o que diga respeito a (descendentes de) conterrâneos (de outrora), chegando a idolatrá-los, vendo-os como heróis, representantes da pátria lusitana pelo mundo, que simbolizam directamente a capacidade de trabalho do português médio que abandona o seu país em busca de condições mais favoráveis.

Interferências, por Dos Santos, no Insurgente.


No fundo, ambos os textos reflectem algo que muitos portugueses pensam: Portugal não é um bom local para se viver e para singrar. Desde o jovem licenciado que sonha ir trabalhar para Espanha, Inglaterra ou EUA, quer por conhecimento, oportunidades ou remuneração, até ao adulto de meia idade, que apenas quer o melhor para os seus filhos. E que reconhece, com consternação, que o seu país não é o cenário que melhor ambiente lhes proporciona.

Dos Santos afirma depois, no final do seu texto, que são esses mesmos portugueses que bloqueiam uma possível mudança, ao alterarem "a forma de entender Portugal e os portugueses altera-se radicalmente quando o assunto não recai sobre os emigrantes e seus descendentes, mas sobre os habitantes do território original. Não concordo em absoluto com esta perspectiva. Penso mesmo que há muita gente que percebe que Portugal está mal e que sim, é preciso mudar e não camuflar, e que começa a perceber, por escassez, que não se pode distribuir quando não se cria. Porém, se elaborarem um pouco sobre isso e se se aperceberem das implicações que tal mudança poderia ter, amedrontam-se. Pensam nas resistências que haveriam, nas pessoas que inevitavelmente iriam ser prejudicadas e, quem sabe, neles próprios, por se sentirem incapazes de acompanhar a evolução. E então conformam-se, e deixam andar. Desiludem-se, e são engolidas pelo sistema.

malta com binóculos

  • «Penso mesmo que há muita gente que percebe que Portugal está mal e que sim, é preciso mudar e não camuflar, e que começa a perceber, por escassez, que não se pode distribuir quando não se cria. Porém, se elaborarem um pouco sobre isso e se se aperceberem das implicações que tal mudança poderia ter, amedrontam-se.»

    Qual é o motivo de discórdia, então? "Os portugueses" julgam sempre que há qualquer coisa que tem de mudar mas recusam-se a compreender o quê (que é a conclusão a que chego no fim). Querem conjugar toda a percepção de benefícios directos providenciados ou forçados pelo Estado sem aceitar as suas consequências negativas e inevitáveis.

    A mudança radical de perspectiva de que falo é o facto de reconhecerem implicitamente a superioridade de sistemas como o americano (tendencialmente liberal) e depois se recusarem veemente a aplicar reformas nesse sentido.

    Muitas destas coisas têm mais a ver com psicologia social do que propriamente (incluindo o conformismo, que é uma praga muito disseminada entre aos portugueses) com economia. Provavelmente dava um bom tema para um livro.

    By Blogger dos ∫antos, at 10:48 da tarde  

  • Talvez não seja discórdia mas uma visão alternativa nas causas. Se calhar até existem muitos portugueses que querem mesmo mudar, mas acreditam que mais ninguém quer.

    E como tal, vão vivendo neste nevoeiro, convencendo-se que tais pensamentos são pecaminosos. Quem sabe, se não o serão? Afinal, temos pessoas que se habituaram a uma determinada formatação do mundo durante anos. Uma formatação passada de gerações em gerações. Daí que a psicologia possa, de facto, ajudar a alguma compreensão.

    By Blogger Tiago Alves, at 11:07 da tarde  

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