quarta-feira, setembro 6

O fracasso da negociação (II)

No caso dos trabalhadores, o caso já é um pouco diferente. Não acredito que tenham feito muitas contas. Se as tivessem feito já teriam concluído que têm muito pouco poder. A decisão de encerrar está tomada e a alternativa da empresa é suficientemente boa para não se ter de submeter às exigências da comissão nem se preocupar em demasia com uma greve.

Assim sendo, e mais uma vez assumindo a continuação da greve, um não acordo significa que os trabalhadores vão receber apenas os seus salários até ao final do ano (com algumas diminuições devido à greve). Não recebem mais nada, excepto alguma felicidade intrínseca por impingir custos à GM, como os referidos no post anterior. Não sei o quanto os trabalhadores querem mal à GM. É difícil quantificar. Porém, e assumindo que nem todos querem a mesma quantidade de mal, haverá certamente alguns trabalhadores que estariam dispostos a receber um menor subsídio social, considerado pela GM como preferível a um não acordo. Basta o benefício do subsídio (também diferenciado) ultrapassar a vontade de punir a GM.

Porém, como os trabalhadores negoceiam de forma agregada, regidos por uma duvidosa CT, tal coisa é difícil. A vontade individual do trabalhador é desprezada, e a relação é feita pela CT: entre o valor do benefício do subsídio para os negociadores (totalmente arbitrário, pode ou não coincidir com a média da soma dos benefícios individuais) e a vontade de ficar bem vista na TV e no interior do Partido, assim como impingir uma derrota não ao patrão que vai fugir, mas ao capitalista selvagem e desumano. Assim, a CT insiste na sua proposta e não se move para uma zona ainda melhor do que a alternativa e onde a GM poderia aceitar. No final, provavelmente, algum trabalhador vai perceber de que foi rejeitada a possibilidade de um acordo melhor do que a sua alternativa. E se calhar deixará de pagar para o sindicato..

malta com binóculos

  • Não entendi porque acreditas que " certamente que a GM já fez todas as contas" e, no caso dos trabalhadores não acreditas "que tenham feito muitas contas".

    Parece-me ser apenas uma questão de fé. Afirmar-se isso ou o exacto oposto vale exactamente o mesmo.

    Na negociação, são tão válidos os incentivos económicos - num sentido estrito, como os de outra ordem. São é muito mais difícies de identificar e de quantificar. Mas se uma das partes negoceia colocando de lado os incentivos não económicos da outra por lhe parecerem ilegítimos ou descabidos, priva-se de soluções melhores.

    Numa negociação deste género existe sempre assimetria informativa entre as partes - que, normalmente, é ainda maior para um observador externo.

    Um bom indício é que deixas de fora dos custos da GM aqueles relativos aos custos de degradação de imagem e publicidade negativa e os efeitos sobre a motivação dos trabalhadores desta e de outras fábricas. As perdas de produtividade não são apenas as decorrentes dos períodos de greve. Até porque os custos de uma greve são dificilimos de calcular - mesmo para gestores.

    Aliás, se os gestores da GM fossem assim tão bons a fazer contas, a GM não estaria na situação em que está. Acho que se fosses accionista da GM não terias a mesma fé.

    A partir do momento em que a CT está mandatada pelos trabalhadores, não existe nenhum problema específico. Os stakeholders da GM também estão representados.
    Ao contrário do que pensas os problemas de governação colocam-se, simetricamente, tanto de um lado como de outro.
    Esqueceste também de incluir na inequação as vantagens que os trabalhodores recolhem ao negociarem de forma agregada.

    By Blogger c., at 5:34 da tarde  

  • Caro c.

    Talvez seja um palpite, mas vem fundamentado no resto do texto, servindo até de base para entender a rejeição da proposta do CT.

    Os incentivos de outra ordem devem ser considerados e eu faço-o, ao afirmar que "basta o beneficio ser superior a vontade de punir a GM". Porém, o que está em causa na negociação não é só esta vontad mas tambem (e principalmente) a vontade dos negociadores do CT - o tal problema de agencia que falei.

    Esta vontade vai aumentar (artificialmente e contrariamente as intenções de pelo menos parte dos trabalhadores) a valorização da punição, desequilibrando as coisas a favor de uma escalada no conflito e consequente não acordo.

    Aceito plenamente a critica da assimetria da informação e certamente muitos dos custos não estãoo representados. Porem, a ideia principal do post era argumentar que os trabalhadores neste momento não têm capacidade para atingir a sua aspiração, pois esta é, para a GM, uma alternativa pior do que um não acordo.

    Argumento assim que em vez de prosseguirem num conflito onde não possuem poder (e saberiam-no se tivessem feito as contas) deveriam abdicar do seu nivel de aspiração e moverem-se para mais perto de algo equivalente à alternativa da GM e mantendo-se dentro do intervalo de acordos melhores do que a alternativa - receber os salarios e mais nada. Penso que há muita margem para tal.

    By Blogger Tiago Alves, at 6:37 da tarde  

  • "Porém, o que está em causa na negociação não é só esta vontad mas tambem (e principalmente) a vontade dos negociadores do CT - o tal problema de agencia que falei."

    Caro Tiago,

    Isto é apenas matéria de fé. O problema de agência coloca-se dos dois lados.

    Porque é que devemos assumir que os representantes dos stakeholders da GM não são também vítimas do que assacas à CT?

    Como sabes que as vantagens que os trabalhadores retiram da representação mandatada não é superior as desvantagens?

    Como sabes que a aspiração dos trabalhadores é para a GM uma alternativa pior que um acordo? Se os gestores da GM são tão bons a fazer contas e a identificar alternativas, porque tem a GM os maiores prejuízos do mundo?

    By Blogger c., at 6:58 da tarde  

  • no último parágrafo "..ACEITAR a aspiração dos trabalhadores..."; "...identificar A BONDADE das alternativas.."

    By Blogger c., at 7:00 da tarde  

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