segunda-feira, setembro 4

Externalidades na ostentação de riqueza

Brad DeLong, professor de economia em Berkeley, ex-Deputy Assistant Secretary do tesouro americano durante a administração Clinton e, num capítulo mais importante da sua carreira, um popular blogger, originou uma discussão entre bloggers economistas. DeLong usa como justificação para um sistema fiscal progressivo a ideia de que a opulência dos ricos causa um mal-estar entre os pobres, e que assim há uma transferência de bem-estar de ricos para pobres, que também gostarão de se sentir invejados.

...I'm enough of a touchy-feely sociology-lover to believe that a good chunk of the utility the rich derive from their conspicuous consumption is transferred to them from the poor...

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Enquanto para alguns na direita a justificação de Brad DeLong pode parecer uma laracha, os economistas não a podem tratar levianamente. A sugestão de que os ricos retiram prazer da ostentação da sua riqueza e assim criam mau-estar entre os pobres não é completamente ridícula. Isso implicaria a existência de uma externalidade, o que levanta naturalmente a sugestão de se criar um imposto de pigou para a corrigir.

Os economistas e bloggers Alex Tabarrok e Tyler Cowen do Marginal Revolution, tal como Greg Mankiw têm uma posição oposta a Brad DeLong.

Mankiw admita a possibilidade existência da externalidade, e cita investigação que a sugere (Luttmer e Weinzierl). No entanto esta relação é local, o problema será a riqueza relativa de alguns membros da comunidade. Como diz Tyler Cowen:

Many of the poor resent the successful Korean grocer more than they resent Paris Hilton. Yet I wouldn't want to tax the grocer for that reason, even if he does sometimes gloat. Those "formerly poor who are making it" are often the people I least want to tax (in fact both Brad and I wish to subsidize them through EITC), yet they are often the most envied.

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Assim o problema não é de ricos contra pobres e os infractores passam a ser determinados membros bem sucedidos de cada comunidade. Sería difícil penalizar com justiça os infractores individualmente.

Por seu lado, Alex Tabarrok inverte a questão para demonstrar o absurdo da sugestão de externalidades duvidosas para definir public policy em geral, e argumento de DeLong em particular:

The solution to envy is not to tax the rich but to tax the envious. To be envied is unpleasant. People want to be admired but not envied. To be envied is one step from being hated. (Consider how much crime is motivated by envy.) It's envy which imposes an externality on the rich. Make the envious pay for their ugly preferences.

Surprising analysis? Not really - should gays be taxed because they make some people uncomfortable? Hell no. Tax the bigots for making gays feel unwelcome.

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No fundo podem-se inventar uma série de justificações económicas (nem sempre correctas) para promover qualquer política, mas o caso da progressividade dos impostos não me parece uma questão económica mas sim uma moral. Que justificação existe para penalizar o sucesso?

Julgo que há, especialmente em Portugal, algum défice de discussão sobre o sistema fiscal progressivo. É quase um fenómeno natural, um dado adquirido. Não é clara a justificação para a sua existência, e a existir (justificação), passa pela questão da inveja que dificilmente será justa.

malta com binóculos

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