quarta-feira, agosto 2

Revista Atlântico de Agosto (posta longa)

O destaque da revista deste mês é um artigo de Maria Filomena Mónica. A capa propõe que conheçamos "os perigos para as nossas crianças" que a telenovela acarreta. Lendo o artigo verifiquei que se confirmavam os meus piores receios: afinal era só alarmismo moralista e snob.

A introduzir o artigo está logo uma garantia da imparcialidade e isenção do artigo: «Pedimos a MFM o sacrifício de assistir durante o tempo possível aos episódios da novela MCA», algo que a autora faz questão de relembrar começando o artigo com «A ideia não foi minha».

Depois de descrever a sua investigação, MFM lança a primeira crítica à vida familiar depictada na novela, sendo do «género "somos-todos-a-favor-do-diálogo". Não há regras, apenas sentimentos.» Suponho que o diálogo entre familiares é uma coisa a evitar, assim como o incesto. É nefasto para as nossas crianças, elas podem ganhar a noção que é positivo falar com os pais sobre os seus problemas.

As críticas prosseguem: «Deste mundo, desapareceram ainda o prazer da aprendizagem, a ânsia de afirmação e a necessidade de estudar». Bom, para uma série em que 80% das cenas passam dentro da escola, eu ponho em causa o argumento da primeira frase. Os MCA não retratam uma escola séria e uma massa estudantil laboriosa, é certo, retratam-na como um lugar «fixe» e feliz. Mas não me parece danoso para as crianças que se passe a ideia de que a escola pode ser um sítio porreiro, afinal de contas isto é entretenimento e eu concedia que por vezes os putos merecem algum.

«Ninguém lê, ouve música séria ou discute temas interessantes». Séria e interessantes para quem, para o público alvo ou para a MFM? A autora certamente não aprova da música, da qualidade dos actores, da profundidade do script ou da indefinição da idade das personagens. Isso não faz da série um «retorno à barbárie e uma ameaça à inocência de todas as crianças», faz da série um aborrecimento para uma intelectual décadas mais velha que o público alvo.

Segundo o editorial de PPM, o que está em causa não é a liberdade da TVI «de pôr no ar o telelixo que bem entender». O que está em causa é o que é explicado num dos parágrafos das 4 páginas do artigo: entre alguns intervalos surgem anúncios com actores da novela, o que poderá ser ilegal. Eu até não me importo de ver a «Matilde» a promover uma marca de depilação mas este parece ser o único ponto razoável do artigo. O que já não me parece é que seja razão para dedicar 4 páginas a alarmar pais e mães sobre a «barbárie» que são os Morangos com Açúcar.

Por seu lado, entre os pontos menos razoáveis, alguns até têm piada. Segundo a autora, alguém enviou para o site da novela uma mensagem a descrever o seu dia: «levantara-se às 10 da manhã, tomara o autocarro, onde escolhera um banco recuado, a fim de se poder masturbar à vontade, ...». Pelo que se tiram as conclusão mais óbvias, que «este tipo de comportamento é patrocinado por uma empresa cuja única preocupação é o lucro». Sim, leram bem, a TVI promove o onanismo nos bancos de trás dos autocarros. Preocupem-se!

O artigo acaba com o apelo aos pais para protegerem as suas crianças perante as imundas sugestões de sexo retratadas na novela. Porque é que se escolheu os Morangos com Açúcar para como exemplo desses perigos é-me estranho. Eu fui puto há menos tempo que a Maria Filomena Mónica e, comparando com o que estão expostas hoje as crianças, este é dos menores perigos à sua inocência. Talvez a escolha de uma novela extremamente popular e o alarmismo da capa sejam sugestão que afinal a TVI não é a única empresa «cuja única preocupação é o lucro», um aparentemente grande pecado.

malta com binóculos

  • Ó Xóriço, tens filhos?
    E vêm aquela bosta fedorenta inenarravelmente estúpida sem um pingo de conexão com a realidade?

    Se sim, o melhor é ires aos saldos de neurónios, ou já danças à Floribella?

    Vai-te catar!

    By Anonymous Anónimo, at 7:18 da manhã  

  • Mas que revolta, caro anonimo! Ainda nao li o artigo pelo que nao quero tecer grandes comentarios. Porem, habituado que estou a acreditar no Manuel e conhecendo o estilo "ortodoxo" da MFM, nao me espanta que o seu post esteja maioritariamente correcto. E por isso, que o artigo de MFM seja um enorme tiro no pE.

    By Blogger Tiago Alves, at 10:11 da manhã  

  • Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    By Blogger Manuel Câmara, at 12:34 da tarde  

  • Não tenho filhos. Portanto a resposta às suas perguntas é não.

    E a série é de ficção, isso talvez explique alguma desconexão com a realidade. Os putos tendem a gostar um bocado de fantasia e não vejo o que haja de pouco saudável nisso.

    No entanto nem tudo é assim tão irrealista, de outro modo os jovens não se identificariam tanto com a novela.

    By Blogger Manuel Câmara, at 12:37 da tarde  

  • Os morangos ja se podem criticar por causa do sucesso, mas atentados a inteligencia das pessoas comoo são alguns progrmas da tvi e da sic, nomeadamente o meu detestavel e odioso noivo (ou qlq coisa assim), ninguem critica..isso sim ja não é um perigo para jovens e crianças...irreal ou não, ficção, ou não, os MCA divertem os miudos e até agr não tenho visto casos de miudos seriamente perjudicados por verem a novela..mas se conhecerem algum por favor avisem!!!

    By Blogger Colombianita, at 4:37 da tarde  

  • Por causa do post fui ler o artigo da MFM, a que tinha dado uma vista de olhos. Parece-me que muitas das críticas não são apropriadas. Ok, talvez seja um artigo que, em Portugal, contaríamos mais encontrar na Nova Cidadania ou na Alameda Digital, não na Atlântico. Mas não me pareceu descabido e é imensamente preferível aos devaneios beato-progressistas da Dra. Maria Barroso.

    Quanto ao snobismo, não o encontrei. E parece que o continuas a ver como um mal sem ponta de bem. Não é verdade, sendo que a maioria das vezes é absolutamente inócuo. E snobismo não é elitismo nem o espírito critico que neste assenta.

    Quanto ao alarmismo, enfim… é verdade que a MFM se parece escandalizar mais do que seria próprio a uma socióloga (se não a uma socióloga, à própria MFM). Contudo, o artigo insere-se numa tradição intelectual de um certo liberalismo: o próprio Sir Popper dedicou os últimos anos da vida a combater afincadamente os malefícios da tv, como antes havia feito com o marxismo, o historicismo, o dogmatismo, o relatitivismo e tutti quanti. Não é uma questão menor, a meu ver. A televisão tem um imenso poder, e qualquer poder, numa sociedade liberal deve ser limitado (e não apenas o do estado). Se os mecanismos de controle não parecem funcionar, existirão razões para algum alarme. Julgo que há motivos para entender que é assim. Claro que as crianças estarão sujeitas a perigos maiores que os McA, mas, a confiar na MFM, a extensão e a profundidade de influência que estes atingiram justifica, não pânico, mas uma ansiosa preocupação. As sociedades liberais e democráticas têm inscrita na sua génese a aspiração a coisas mais elevadas, o que tem conduzido a intermináveis conflitos entre liberdade e virtude – esta entendida aqui num sentido lato. Há dias falávamos na validade ou não das “intuições morais” universalizáveis. Não será idiota pensar que essas “intuições morais” não provém de nenhuma manobra celeste, mas da sociabilidade que é própria dos humanos – daí a importância da televisão neste contexto de transmissão de valores. E como defende o evolucionismo hayekiano, que te é caro, algumas sociedades sobrevivem precisamente porque defendem e praticam certos valores e instituições – entre eles, para teu desgosto, a família e a moralidade. Obviamente que estes valores não se constituem num referencial perpétuo, mas, hoje por hoje, não vejo que alternativas como a vulgaridade, a boçalidade e o relativismo moral lhes sejam preferíveis.

    Ou seja, se os McA são para ti e para a MFM um aborrecimento (para mim, com tanto sexo entre adolescentes, duvido que o seja), não me parece que para as crianças (e é nos malefícios para as crianças que ela assenta a crítica) seja um puro entretenimento. Pelo menos, não será o entretenimento que elas merecem.

    Já a parte do lucro está bem esgalhada – deverias ter optado por uma posta curta só com isso. Alguma intelectualidade continua a vaguear entre os conceitos tomistas e socialistas do lucro pecaminoso. Em defesa da MFM, não estou certo que seja o caso – terá sido um descuido discursivo. E há casos mais caricatos: há tempos li uma entrevista do líder da JS ao Público. Era uma entrevista muito “hormonal”, que ia assim: aborto? Depressinha e a pedido. Células estaminais? On the rocks. Bancos de esperma? Urgente. Legalização das drogas? Inadiável. Legalização da prostituição? Ou isso ou a barbárie. Até que se chegou às barrigas de aluguer. E aí, o jovem, confessou umas dúvidas. A razão? Cito: “porque se poderia criar um mercado

    By Blogger c., at 11:35 da tarde  

  • Olha, e no minimo, case apliques o conceito do custo de oportunidade e aquele teu paradigma sobre provincianismos gastronómicos ao entretenimento infantil aos MCA, terás que conceder uma larga margem de razão à MFM.

    By Blogger c., at 11:36 da tarde  

  • Apesar de as considerares desajustadas, não endereçaste a grande maioria das minhas críticas. E muito sinceramente não imagino que tenhas visto algum episódio da novela.

    Admito que fazes um argumento interessante. O teu ganha em comparação com o de MFM porque é genérico, enquanto MFM teve de elaborar um como crítica dos MCA. Isto porque, embora tenha razão quanto à influência dos MCA, não convence que esta seja negativa. Alegar que a série promove a masturbação no banco de trás do autocarro, o alcoolismo juvenil e o diálogo entre pais e filhos como algo negativo a mim não me convenceu e é essa uma das críticas que eu faço.

    Os MCA não passam uma mensagem imoral ou anti-familia, eu julgo que acontece mesmo o contrário.

    By Blogger Manuel Câmara, at 1:52 da manhã  

  • Refutei, genericamente, as críticas genéricas que fizeste: pedantismo e alarmismo. O primeiro não está lá, o segundo não me parece deslocado.

    Escreves que "Isto porque, embora tenha razão quanto à influência dos MCA". Pois é precisamente o que alvitro como mais relevante. Dá uma vista de olhos a isto: http://blogs.guardian.co.uk/culturevulture/archives/2006/06/26/the_land_of_doa.html#more

    Parece que em Inglaterra, estão a reescrever os livros da Enid Blyton. Aduzo o assunto como saliente já que, ao contrário de outros livros infantis, os dela são puro entretenimento – li dezenas e não me recordo do enredo de um. Objectivo dos revisionistas: transformar o estilo edwardiano em prosa mais atraente às retinas dos pimpolhos contemporâneos e, essencialmente, expurgar as referências imorais e politicamente incorrectas que, em opinião consensual, conspurcam a obra da senhora: racismo, xenofobia e classismo. Ora, eu consumi a coisa, em doses intensivas, via livros já herdados dos pais e lá em casa nunca ninguém foi skin ou votou, com o meu conhecimento, no PNR. Au contraire, até houve quem sofresse dumas tendências esquerdizantes, devidamente camufladas e obliteradas. Terás então razão quando dizes que as crianças são capazes distinguir as coisas e contextualizá-las. Concordo em absoluto. Não se poderá inferir o oposto quando gerações de crianças leram Enid Blyton – let alone Grimm, Andersen ou Perrault, que chegam a ser aterradores. Ora, no que toca aos MCA é lídimo admitir que, existindo fenómenos de alucinação colectiva da dimensão daqueles que a MFM descreve no artigo, essa competência estará, no mínimo, severamente dimínuida.

    A este fenómeno não será estranha a natureza diferente dos livros e da televisão, já que aqueles, mesmo os da Enid Blyton, exigem disponibilidade intelectual, a capacidade de imaginar – e consequentemente de contextualizar e de separar a fantasia da realidade. Precisamente o que os telespectadores dos MCA não parecem conseguir fazer. Aliás, a MFM escreve uma frase reveladora, que a meu ver, não deveria ser esquecida: “As opiniões quanto aos efeitos dos programas televisivos não são unânimes, havendo quem defenda, incluindo eu, que as pessoas não são tão influenciáveis quanto se pensa. O mesmo não se passa com as crianças.” Ora, adicionando a isto a simplificação pauperista dos diálogos, que não contestas, a indefinição de idades, e aqui a MFM refere primeiramente ao público e não às personagens, como tu escreves, existirão indícios que os MCA, mais que outros produtos televisivos para crianças, mesmo os não pedagógicos, influenciam negativamente a audência infantil (e é só esta que é relevante). O que explica, simultaneamente, o sucesso e a perniciosidade. Ou seja, é um produto concebido para as crianças, mas que depois passa mensagens que não são passíveis de ser descodificadas e contextualizadas por crianças. Se o meio não faz o homem, pode fazer a mensagem.

    Não enderecei as tuas críticas em concreto por razões de elegância e poupança de esforços, mas vamos a isso. Primeiro que tudo, parece-me que cais na falácia que apontas à MFM. (ponto prévio: eu não escrevi “a confiar na MFM” no comentário anterior por acaso). Ou seja, não demonstras que da carência na apreciação que crês ter vitimado a MFM tu estás livre. Limitas-te a alegar um ténue “fui puto há menos tempo que a MFM” (e, de caminho, arrasas por obliteração a produção, académica ou não, da MFM sobre estas matérias). Permite-me considerar que se admitirmos que esse argumento funciona, não é a teu favor. Aliás, não me surpreenderia que, vitimado por uma pequena distracção, tivesses chegado a catalogar a apreciação aparentemente excessiva e deslocada da MFM como…infantil.
    Vejamos as tuas censuras: «género "somos-todos-a-favor-do-diálogo". Não há regras, apenas sentimentos.» Que nesta frase se leia uma critica ao diálogo entre pais e filhos é abusivo, e ou resulta dum processo de intenções ou de um radical analfabetismo próprio de um telespectador dos MCA. Sem ser demasiado platónico, admito que se chame de família a algo em que “não existem regras, mas apenas sentimentos”. Mas não é este o conceito de família que tem prevalecido nos últimos dois séculos na civilização ocidental. A ideia de família da qual nasceu, precisamente, o conceito de infância de que fala a MFM. Experimenta aplicar a mesma dialéctica ao trabalho infantil. A MFM não critica, ao contrário do que insinuas, o diálogo entre pais e filhos (coisa que, pessoalissimamente considero estar hiper-valorizada), mas o excesso de diálogo, a falta de estrutura, o seu desenquadramento de um figurino normativo.
    Quanto à escola e aos livros. Uma escola pode ser um lugar “fixe e feliz”? Com certeza. Pode ser um lugar em que não se estuda? A realidade segreda-nos que já o é. As crianças têm direito ao entertenimento? Sim, mas convém que percebam o que é ou não é entertenimento. Assumo que os MCA retratem o quotidiano de alguns jovens dos dias de hoje. Num assomo de neo-realismo, os retratados têm horror aos livros – pelos vistos não ao sabonete, faltou arrojo. E são sem leituras, felizes. É díficil acreditar que as crianças retirem daí uma caução para a não leitura – tarefa que por vezes exige mesmo esforço, sacríficio e auto-disciplina? Em tempos, a Teresa Guilherme disse qualquer coisa como: “Sou uma loura burra e ignorante, mas sou feliz”. Muito bem, arrasa com dois milénios de civilização, mas nada a opor. É uma confidência – com o enorme mérito de ser cumulativamente verdadeira e perturbante - que a mim ou a ti não provocará danos de maior. Poderemos porém ser peremptórios que sujeitar crianças a dosses massivas de exposição a este tipo de mensagens não é gravoso? Remeto para o que escrevi no anterior comentário sobre intuições morais.
    Aquilo que se consegue dizer está cerceado pela natureza limitada das palavras. É necessário um esforço de interpretação e contextualização, que nos permita identificar o que está escrito. Contudo, não é díficil direccionar o esforço no sentido contrário - como dizia Richelieu “dai-me seis linhas escritas pela mão de um homem honesto e eu condená-lo-ei à forca”.
    Façamos esse exercício de esmiuçar a linguagem, quanto ao exemplo do rapaz que se masturba nos autocarros – que a MFM usa, a propósito, como exemplo da confusão moral em que chafurda alguma da audiência do programa. A tua intepretação é, uma vez mais, e na minha opinião, abusiva. Primeiro, esqueces que no mesmo parágrafo, e referindo-se ao mesmo assunto, a MFM escreve qualquer coisa como “não sou naif, marginais sempre existiram” (cito de memória, não tenho aqui a revista). De seguida, traduzes uma parte da frase, mas trocas o verbo patrocinar pelo promover. Este significa impulsionar, motivar, fomentar; aquele, proteger, abrigar, defender. Ou seja, promover implica uma acção causativa, patrocinar uma defensiva. Sendo matéria factual que foi no site dos MCA que o rapaz fez a inconfidência, que se sentiu à vontade para a fazer lá, para mais usando um tom vaniloquente e que não foi apagada, não é injusto dizer que a TVI, ainda que apenas por negligência, dá guarida a este tipo de mensagens. Dá guarida como quem diz acoita. Acoita como quem diz patrocínio. Pode ser um sintoma ou uma aberração, de acordo. Caminhado para a actualidade, também existe quem defenda que os casos das fotografias falsificadas e encenadas das agências noticiosas e da MSM é apenas uma aberração. Mas, a meu ver – e no da MFM -, o problema é que num dos sites mais visitados por criança se exponham aquele tipo de mensagens.
    Em suma, para provares o teu ponto, usas, recorrentemente, a técnica de atribuíres à MFM mais do que ela diz, ou, em alternativa, recorres à do straw dog, mentindo por distorção, quando simplificas os argumentos dela para mais facilmente os refutares.
    Parece-me inegável que a maioria das críticas à MFM (aparte as que assentavam no pedantismo, alarmismo, futilidade do tema e uma, sois disant, “infidelidade ideológica”, por grau crescente de patetice) se fundam no equívoco de quem, perante o oceano, se limita a apreciar a espuma das ondas – se quisermos ler no artigo apenas uma crítica a uma telenovela televisiva, será apenas isso que teremos. Mas ela faz mais que isso: apresenta, não direi uma tese, mas hipóteses. Reúne um considerável acervo de indícios. Centra o seu artigo num apelo à responsabilização dos pais perante o consumo excessivo por parte de crianças dum produto medíocre, cuja parte considerável da audiência tem dificuldades em contextualizar o que vê, em separar fantasia da realidade e lhe dedica uma atenção exaltada, desproporcionada, quase religiosa. E, isto faz toda a diferença, é uma audiência composta por crianças
    Em suma, propõe uma discussão sobre a responsabilidade pessoal e aquilo que cada um faz com a sua própria liberdade – caldeado no gigantesco detalhe de se falar daquilo a que se sujeitam as crianças. A liberdade gera angústias, desequilíbrios e tensões – e, por vezes, a entrega a impulsos menos desejáveis.
    Isto até nos permite discorrer sobre uma hipótese interessante: a vulgarização e degradação dos gostos e dos entretenimentos será uma consequência da democratização? Os factos dos últimos anos levam a supor que sim. Haverá aqui – como apontaram muitos teóricos do liberalismo– duas visões conflituantes da democracia. De um lado quem entende que num sistema aberto as escolhas pessoais estão imunes à crítica, um bom caminho para o relativismo e para o nihilismo, do outro os que advogam que a par da liberdade de escolha caminha a responsabilidade. Ninguém de bom senso defende o retorno aos tempos de menos escolhas e menos autonomia. O debate destes assuntos não equivale a dizer que isso é mau. O apelo ao autocontrolo, à responsabilidade pessoal dos pais na protecção da infância, não é, de per si, paternalista e obscurantista. É uma longa tradição das sociedades livres. E é isso que a MFM faz.

    Aliás, eu julgo perceber a referência da MFM quando se refere à “única preocupação é o lucro”. Terá a ver com a mudança de mentalidades das elites, quando sujeitas às violentas vagas de democratização da sociedade. É um problema bem sério, e só aparentemente off-topic
    Criticar os horizontes despidos de constrangimentos que as sociedades democráticas proporcionam parece ter como resultado acusações de anacronismos ou desfazamento do espírito dos tempos. Não creio é que não o fazendo consigamos compreender, criticamente, o nosso tempo. Em Portugal nunca abundaram em número e riqueza as “instituições intermédias” que noutras latitudes foram providenciais para o sucesso do modelo liberal de governo – elites profissionais, igrejas, etc. . Essas instituições, abertamente elitistas e anti-democráticas, cumpriram – e cumprem, mas cada vez menos - amiúde a função de guiar os cidadãos, de educar as massas, de elevar as aspirações, de conduzir a democracia. Em jeito bíblico, endireitando as veredas e aplainados os caminhos da liberdade. Esse papel tem vindo a degradar-se progressivamente e é sustentável que isso faça mais mal que bem às liberdades. Em suma, talvez não seja errado assumir que a vulgarização e o excesso de democraticidade - sejam, numa sociedade liberal, perniciosas (como ensinam inúmeros aforismos, tudo o que é excessivo não pode ser bom). Ainda mais quando servem de figurino para entreter e fascinar uma das mais frágeis conquistas civilizacionais: a infância. Seria bom que enfiasses esta evidência no miolo.

    Ir para lá disto implicaria uma análise crítica dos MCA, que, como bem imaginaste, nunca vi. E já que a mim dificilmente alguém me encomendará tal tarefa contra contado, eximo-me, aliviado, de a cumprir.

    ps Convenho que é muito subjectivo dizer-se que os MCA passam bons ou maus valores. Numa sociedade livre existem sempres valores conflituantes. Aliás, não há problema nenhum com mensagens imorais ou anti-familia. Até acho que é muito saudável consumir essas coisas.

    c.

    By Anonymous Anónimo, at 12:46 da manhã  

  • a Sra. Maria Filomena Monica ... merece algum respeito condenados!!! n me estranha a reacçao cobarde de tanta gente... k se coloca do lado da apatia, não se apercebendo das consequencias nefastas que aquela telemerda tem para as nossas crianças.

    enfim

    By Anonymous Anónimo, at 3:10 da manhã  

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