quarta-feira, julho 12

Leituras de Verão: Conquistadores de Almas

Na semana passada peguei neste livro esperando ficar a conhecer melhor uma fase da nossa história, e tentar perceber melhor o "espírito revolucionário" que se diz ter vivido na altura pre e pos 25 de Abril. Tendo eu nascido nos anos 80, já cresci numa época em que felizmente já ninguém é camarada e os principais temas políticos não passam pelas lutas de classes, à excepção de certos grupos de pessoas que ficaram paradas no tempo. Ainda assim, a grande maioria da classe política e mesmo "elite intelectual" deste país cresceu, e certamente muitos nasceram para a política, na era da febre revolucionária. Por isso eu tenho enorme curiosidade tanto sobre esse período, como sobre a transição da maluqueira marxista para um medíocre, embora incomparavelmente mais saúdavel, estacionaridade social democrata.

O livro é um relato autobiográfico de José Luis Pinto de Sá, na altura um aluno do Técnico onde conhece vários movimentos marxistas antes do 25 de Abril, tendo sido preso depois de se filiar num deles. A história podia terminar com o 25 de Abril mas acontece depois um episódio ainda mais cruel. Após o 25 de Abril Pinto de Sá foi outra vez preso político durante o PREC, como alegado colaboracionista da PIDE. A história é relatada com uma honestidade quase brutal, é por vezes difícil de conceber que o autor tenha escrito a sua história pessoal, que em partes é muito triste, com aquela frieza e quase distância das emoções e posicionamento ideológico que o autor viveu na altura.

Apesar de tudo há alguma comicidade no livro. Em particular as tentativas do seu pai em contrariar a sua crescente doutrinação marxista e a resistência de Pinto de Sá em se deixar corromper pelo pequeno-burguesimo:
O meu pai, que sempre me educara austeramente até aos 17 anos, queria agora que eu me dedicasse à vida de boémia, de discotecas e divertimento, enquanto eu resistia a isso numa atitude de contestação. A certa altura quis oferecer-me um automóvel (...) e eu recusei-o por temer que, no fundo, se o tivesse naquela altura ele me corromperia mesmo.

Curiosa é também a descrição de como decidiu ser marxista:
«Como ideologia abstracta que o marxismo era para mim, natural é que me tivessem então surgindo dúvidas sobre a sua veracidade. (...) Pensei em fazer um estudo de todas as ideologias e procurar assim, pela comparação, a verdade, mas depressa reflecti que por tal caminho nem no fim de uma vida longa eu chegaria a uma conclusão que me permitisse actuar.

Foi numa perspectiva pessoal, interior que fiz a "opção". Se me era impossível descobrir a verdade a tempo de poder decidir, então o que havia a escolher era o tipo de vida que eu queria ter.»


Ou seja, a adopção do marxismo não após uma busca pela "verdade" ou por motivos racionais, mas por ser a ideologia que estava mais acessível para lhe dar um objectivo, um sentido de pertença. Suponho que com o ambiente académico descrito, onde os PCPs que se afastavam do Estaline eram revisas nojentos e tudo à esquerda do Mao era besta pequeno-burguesa, fosse difícil, pela pressão, ser outra coisa que não marxista.

Outro episódio curioso exemplifica a maneira de pensar, extremamente politizada com o marxismo cientifico:
Com tudo isto, as carências afectivas e sexuais continuavam a atormentar-me e, com tantas raparigas com que convivia, decidi tentar ter uma namorada. Planeei isso como um projecto político e escolhi a Isabel Ferreira. (...) Assim, um dia expliquei-lhe muito racionalmente que politicamente necessitava de satisfazer as minhas necessidades afectivo-sexuais e propus-lhe namoro. (...) A Isabel, uma activista neófita que admirava um galã do MRPP da cidade universitária, respondeu-me que se não fosse a consideração política que eu lhe merecia me daria uma estalada, o que me deixou boquiaberto pelo atraso ideológico que ela assim revelava.."

E para terminar o post que já vai longo, uma das passagens que mais gostei no livro, no contexto já da revolução:
A liberdade, era a liberdade que entusiasmava este povo desta maneira! Como ne poderia alguma vez ter ocorrido, no universo ideológico marxista-leninista ou na prisão celular da PIDE, que este povo não queria nem a ditadura comunista nem a salazarista, mas sim pura e simplesmente a liberdade?

Overall, apesar de algumas partes menos excitantes (extensa descrição da burocracia do seu partido e dos diferentes posicionamentos dos partidos M-L), o livro é bastante enriquecedor para um jovemzinho nado na década de 80 como eu, onde o que mais se aproxima de uma experiência política é escrever umas baboseiras num blog.

Entrevista a Pinto de Sá no DN: "Ninguém lutava pela democracia. Lutávamos por uma ditadura diferente"

Excertos do livro

malta com binóculos

  • muito bem, não conhecia mas despertou-m agora a curiosidade pois tb eu gostava d compreender melhor esse espirito revolucionario.

    By Blogger nostringsattached, at 12:06 da tarde  

  • Parabéns pelo post. Também fiquei com curiosidade em ler o livro.

    By Blogger Gonçalo Martins, at 8:44 da tarde  

  • Bem, se me permitem e dada a vossa curiosidade sobre o que era a política no "antigamente", junto mais um excerto em que faço o relato, absolutamente verídico, de como fui parar aos CCRM-L:
    http://conquistadoresdealmas.blogspot.com/2006/07/do-marxismo-descoberta-da-organizao.html

    By Blogger Velha Guarda, at 7:44 da manhã  

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