sábado, junho 3

Os novos emigrantes

Este ano o número de alunos portugueses que se candidata a licenciaturas em Espanha ultrapassa os mil. O dobro do ano passado. Como não podia deixar de ser, a maioria são aspirantes a médicos. Enquanto cá em Portugal a entrada não se faz com menos de 18 valores no país vizinho entra-se com 15. Afinal, 22 faculdades espalhadas pelo país teriam de ter algum reflexo.

Num país que se queixa constantemente da falta de profissionais no sector tal coisa não deixa de entristecer. Até porque estudos indicam que a maioria destes emigrantes acaba por permanecer no país vizinho, estabelecendo lá as suas raízes. Óbvio, tendo em conta os seis anos que por lá ficam e em que arranjam amigos, namorado(a), emprego, quem sabe noivo(a), casa própria, isto sem contar com o tradicional desgosto para com o país que os obrigou a ir para Espanha para seguir o seu sonho. Mais do que o facto de empresas nacionais serem adquiridas por espanhóis devia-nos preocupar esta imensa hemorragia de qualificados.

malta com binóculos

  • Acho que já falamos disto várias vezes.. Eu não acho que a culpa seja de quem governa independentemente das cores mas do escasso fundo de maneio existente (se é que isto está bem dito) o custo de mais um curso de medicina é elevado..

    Aqui entra aquela parte que já discutimos do custo do nosso curso, Gestão/Economia ser para nós o mesmo preço que um estudante de Medicina paga enquanto que para o Estado este custo e bastante diferenciado. Eu, como bem sabes, não acho mal que se estabeleça um equilíbrio entre todos os cursos. Sim estou a pagar para colegas meus serem médicos e possivelmente ganharem mais que eu.. mas eu também nunca quis ser médica...

    À questão de Medicina em Universidades privadas.. não concordo! é um curso demasiado importante para ser posto à mercê de um qualquer estudante que só porque os pais podem pagar vai para lá.

    Quando ía entrar para a Universidade tive a grande oportunidade de conhecer imensa gente que queria entrar em Medicina e com quem discuti bastante esse problema. Pelo menos com uma rapariga, a Rita. A Rita tinha a perfeita noção que queria medicina e que para isso teria de trabalhar desde o 10º ano! A Rita discutiu comigo a hipotese do tão falado sistema de testes psicotecnicos para determinar se uma pessoa tem vocação ou não para ser médico. Mas na verdade como pode um simples teste decidir isso? Quantas entrevistas seriam forjadas pelo juri conhecer o Pai daquele candidato? Para a Rita embora a média não fosse o melhor era o sistema encontrado mais justo e menos parcial. A Rita entrou.
    Praticamente todos os que conheci entraram, uns 7 ou 8...

    Um deles, o João desistiu. Falta de vocação? Talvez.. Mas terá escolhido ele o curso errado? Na minha opinião não foi tanto assim... O João queria seguir investigação na área da medicina. para que curso iria ele senão para medicina mesmo sabendo que não queria estar a atender doentes?

    Não sei como é o regime de prescrições nos cursos de medicina, talvez se fossem mais apertados estes futuros médicos se despachassem mais depressa e não gastassem tanto dinheiro ao Estado..

    Estas é daquelas questões que se fossem colocadas na FHM diriam que dura 8 horas e ainda dura dura dura....

    By Blogger Inex, at 10:54 da tarde  

  • Eu estou em medicina, mas limito-me a falar da minha faculdade em relação às prescrições porque não conheço as outras. Na minha faculdade não se pode passar de ano com mais de duas cadeiras em atraso (independentente do nº de créditos), nem se pode passar do 3º para o 4º nem do 5º para o 6º (por corresponderem a ciclos diferentes ou ao ano de estágio) com cadeiras em atraso. Há um tempo limite para fazer cada ano e sobrepõem-se (dando um exemplo, quer demorar 3 anos - q é o limite - a fazer o 1º ano já só tem um ano para fazer o 2º). De qq das formas, já estou quase no final do 2º ano e nem meia dúzia de pessoas chumbaram que eu saiba(e as que chumbaram, ou tiveram motivos mto fortes para tal ou são baldas ;) ). Tb li em qq lado que a taxa de conclusão em 6 anos ronda os 80%.

    No outro dia estive a fazer as contas, o nº de vagas mais do que duplicou nos últimos 6 anos. A influência nas médias não foi assim tão grande qnt se pensaria :S

    Qnt a outras provas, eu até gostaria que existissem entrevistas (à semelhança de outros países) mas cá há demasiadas cunhas e tal só seria possível com um processo mm mto transparente. Os testes psicotécnicos não me parecem mto boa ideia porque medicina tem tt saídas que acaba por não haver um alvo específico.

    Qnt a Espanha, lá há desemprego médico e eles são mais do que 4x a população portuguesa. Neste momento já há cá 9 faculdades de medicina (contando com os ciclos básico na madeira e nos açores). 4 x 9 = 36 ;)
    Para além disso, considerando a economia/finanças públicas, não deve ser mto preocupante ter desemprego médico (gastar dinheiro neles e tal...). Cá, seria ligeiramente complicado...

    Em relação às propinas tb acho que deviam ser diferenciadas - a minha educação custa mto mais do que a vossa ;)

    By Blogger Sara, at 11:47 da tarde  

  • Ois... isto de comentar num blog do amigo duma amiga... tem que se lhe diga =D
    Apresento-me já: sou o João, sim esse do post da inex, estive em medicina e desisti! Mas primeiro...

    Concordo com a Inês. Mais ainda do que "Sim estou a pagar para colegas meus serem médicos e possivelmente ganharem mais que eu.. mas eu também nunca quis ser médica..." é a questão de os médicos serem essenciais para qualquer sociedade. Vejamos: desde há alguns (poucos) anos que nenhum médico português pode ser médico sem ter passado por 10 anos de estudo, dos quais os 3 primeiros são, desculpem-me os estudantes que até gostam, horríveis. DEZ anos. Se calhar muitos estão ali pelo dinheiro. Mas muitos querem ser médicos. Desde pequenos, quando viam a Rua Sésamo ou outra série educativa qualquer, que achavam fantástico poder curar pessoas. E porque devem eles pagar balúrdios por um bem que fazem à sociedade? (Sim, eu sei, depois ganham-nos de volta, mas não é essa a questão).

    Medicina Privada. Se nos garantirem que os médicos que saem daquelas portas com um diploma na mão são MAIS (e digo mais porque tem de ser, porque é uma instituição privada!) capazes do que os que saem de Santa Maria ou do ICBAS ou de qualquer outra faculdade de Medicina, não vejo porque não pode haver cursos de Medicina privados. Ajuda a manter cá aqueles que até queriam entrar mas tiveram média de 17.8! Façam programas iguais, nomeiem pessoas com as mesmas qualificações para dar aulas, enfim, tomem as providências para que os alunos sejam médicos e não licencidos em medicina!

    Agora eu! Medicina. Uma série de coincidências permitiu que eu entrasse (entre elas ter-me enganado a escolher as específicas e ter posto biologia juntamente com as outras!). Conheci gente fantástica... Já ouviram falar daqueles rumores de gente que vai à reprografia e altera os apontamentos, ou que arranja uns apontamentos bons e depois não os dá a niguém? Nada disso. Competição é quase nula por ali: quem precisa de competir se sabe que, aconteça o que acontecer, quando sair dali vai ter emprego garantido? Mas porque desisti? Na verdade a Inês enganou-se.

    "O João queria seguir investigação na área da medicina." Não, o João queria investigação. Ponto final. Medicina só porque vinha por acréscimo, só porque, como os outros, tinha um lugar garantido em algum lado, até que conseguisse entrar num laboratório qualquer. Mas também porque pude. Sei que muita gente quer entrar e não pode e eu, que até podia, entrei. Porque me dava emprego garantido. Mas lá dentro... tanto trabalho, tanta coisa para estudar... imagino que ao chegar ao fim do terceiro ano todas aquelas almas respirem e pensei: "O pior já foi, agora vem o melhor". Porque eles querem tratar as pessoas, servir a sociedade... E só a partir do terceiro ano é que o começam mesmo a fazer.

    O problema de Portugal é mesmo a falta de locais de aprendizagem. Santa Maria tem 270 vagas, mas mesmo assim a média foi de quase 18 o ano passado e 18.3 este ano. E sim, mais cursos de medicina não saem baratos! E sim, também, "talvez se fossem mais apertados, estes futuros médicos se despachassem mais depressa" e libertassem a faculdade para outros.

    By Anonymous João, at 11:56 da tarde  

  • Antes de mais, gostei muito da participação e do afinco na vossa argumentação. Vou só falar em alguns pontos, que me parecem "vícios de pensamento", que acho que n deviam existir:

    1)A desconfiança em relação a universidades privadas. Além disso (perdoem-me a Sara e o João) não acho que Medicina mereça assim um tratamento tão diferenciado (e por isso acho que as propinas deveriam ser mais diferenciadas..) Bons profissionais fazem sempre falta (excepto, talvez, professores..>). Além da vigilância estatal constante, penso que deviamos pensar na iniciativa privada não só como individuos em busca de lucro (que são) mas também como prestadores de serviços! E, ao contrario do público, se o serviço privado não for bom, acabará sempre por melhorar ou acabar

    2)A história das cunhas nas entrevistas. Compreendo que Portugal não seja o paradigma da transparencia. Porém, não poderemos continuar a rejeitar sistematicamente a idoneidade de que lida com estes processos.. Se assim for, não confiamos em ninguem, desconfiamos de toda a mudança e nunca avançamos para nada que fuja dos números. E os números (e isto é um tipo da área económica a falar) não são tudo, são mesmo uma pequena parte.

    3)A relação nºfaculdades-média. Pode ter duplicado, Sara, mas é visivel que ainda não é suficiente..Há muitos factores a contribuir para a procura desenfreada de medicina. Uma delas será o emprego seguro (que não há em Espanha..). Se conseguirmos colocar a situação próxima da fronteira (ie, não fazendo com que ser médico seja igual a emprego certo no funcionalismo publico), certamente teremos gente a deixar de pressionar as vagas e a dar lugar aos verdadeiramente vocacionados. Isto só se consegue aumentando as vagas.

    Bolas, não era para me ter estendido tanto :\ temos de marcar, depois dos exames, uma tertulia para discutir este tema ;)

    By Blogger Tiago Alves, at 11:25 da manhã  

  • Eu não falei das privadas por alguma razão ;) Não tenho nada de visceral contra elas. Desde que tenha qualidade e um método de acesso justo (sem ser o que paga mais mas sim o mérito), não tenho nada a apontar.

    Eu concorri para um país estrangeiro no 12º ano (não como rede de segurança mas porque era o que queria mm - por razões familiares acabei por não ir) e fui a uma entrevista. Se o processo for transparente (as entrevistas lá são tds gravadas - pedem a nossa autorização - e mantidas algum tempo depois da conclusão do processo de selecção para o caso de existirem queixas) tb não vejo nenhum inconveniente. Aliás, há mais de uma década a minha faculdade decidiu entrevistar tds os candidatos de medicina (foram até a macau) e atribuíam uma nota a qual contava para a média de acesso. Deixaram de o fazer, porque o Ministério decidiu que as entrevistar valeriam apenas 5% da nota (mto estranho mm...)!

    Eu não sei se o emprego ainda será seguro. Já tenho lido em blogs de médicos internos que há colegas que não têm emprego imediato em determinadas especialidades qnd acabam e os que entraram com este aumento de vagas ainda não saíram. E o que me preocupa mais em relação às vagas nem é tanto o emprego no SNS no fim da formação. O que me preocupa são as vagas para o internato (vulgo especialidade) porque não há nenhuma alternativa a isso sem ser o estrangeiro ou outra carreira sem ser medicina clínica (e aí lá se vai a história de quem vai para medicina ser médico ;) ). Depois do internato concluído cada um pode fazer o que quiser, onde quiser sem passar necessariamente pelo SNS.

    E como o João disse (eu tenho a impressão que o conheço porque a história soa-me terrivelmente familiar), são 10 anos (com 3 anos de teoria que são mauzinhos - estimulantes por alguns lados terríveis por outros; até há alturas em que se percebe que a coisa até tem um objectivo prático para o futuro, outras nem por isso). Quem não quiser mm aquilo (por mais diversos que sejam os motivos - avaliar vocações é smp difícil), desiste mais cedo ou mais tarde. Já agora, lembrei-me que no 1º ano fizeram um inquérito anónimo e a vasta maioria respondeu que a motivação que tinha para estar em medicina eram as correctas ;). Quem o fez por €€€, estabilidade ou pelos pais serem médicos são uma minoria.

    By Blogger Sara, at 10:53 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home