quinta-feira, junho 22

O todo e a parte

Desafiaram-me (a mim, "o defensor do mercado e da livre concorrência") a postar sobre os dados publicados pelo Observatório da Saúde. Dizem os mesmos que o efeito da liberalização das farmácias não se tem feito sentir e que, ao contrário do que seria de esperar, os preços dos medicamentos vendidos fora das farmácias estão cerca de 5% mais caros. A minha pergunta é simples, e daí? Para ficar mais bonito explicar melhor, entendi pôr isto por pontos:

1) A diminuição do preço não é o objectivo da concorrência. Poderá eventualmente ser uma consequência, mas não é inevitável, antes pelo contrário. A concorrência deve servir como um estímulo à contínua melhoria do serviço ao cliente. Nesta melhoria inclui-se, entre outros inúmeros factores, uma possível racionalização de custos, uma inovação tecnológica ou uma qualquer outra maneira de apresentar o produto a um preço mais baixo.

2) A concorrência e o mercado livre criam condições para que a oferta se veja obrigada a evoluir para abarcar o maior número de pacotes de necessidades e preferências, de modo a satisfazer o maior número possível de cidadãos. O pleno nunca é atingido (as preferências mudam, entre outras milhares coisas), nem tal coisa é desejável.

3) Não cabe a nenhuma autoridade fiscalizadora estabelecer regras com o objectivo de baixar preços, pelo que o Ministro só é merecdor de críticas por ter feito deste o principal pilar e motivo da reforma. Tal como referido acima, o mecanismo de preços é apenas uma parte (importante, é certo, mas não determinante) do processo de decisão dos consumidores e do seu bem estar, variando de indivíduo para indivíduo a ponderação a ele atribuída.

4) Qualquer autoridade fiscalizadora, se se realmente preocupar com o bem estar dos indivíduos, deverá, quer nas farmácias quer noutros mercados, criar condições para uma concorrência real e exercer, de forma firme e independente, actividades de regulação, única e exclusivamente como meio para assegurar a concorrência. O mercado encarregar-se-á do resto.

malta com binóculos

  • Só não explicaste em que sentido é que a venda de MNSRM nas grandes superficies beneficiam o consumidor já que estas:
    - São mais caras;
    - Têm horários reduzidos (por comparação com uma farmácia que faz o turno nocturno)
    - Não têm atendimento personalizado por um profissional tão competente quanto um farmacêutico (sim, é um flaimbait aos técnicos de farmácia ;))
    - São muitas vezes de acesso mais dificil (as farmácias normalmente estão no centro da cidade e as grandes superficies deslocadas, na periferia das cidades)
    - Preferências do consumidor? Eu pensava que o consumidor queria um medicamento o mais barato possivel (para quando a venda a vulso?) e atendimento (se necessário) por um profissional com competencias superiores (/flamebait) - não se verifica nem um nem outro.
    - A entidade fiscalizadora não estabeleceu regras, apenas estudou os preços e referiu que, ao contrário do objectivo da reforma, o preço subiu em vez de baixar.
    - As condições estão criadas, houve liberalização do mercado. Se estás a pensar na suposta manipulação dos preços por parte das distribuidoras, bem, não eras tu que apoiavas uma total independencia das empresas para tomar as suas próprias decisões? Uma distribuidora é uma empresa privada, regula os preços como entender.

    PS: Estou à espera de ver o que dizem nos jornais quando algum suicida se lembrar de ir ao supermercado comprar paracetamol para misturar com vodka.. Cabe na cabeça de alguem vender seringas num centro de recuperação para toxicodependentes? Eu acho que não..

    By Blogger Tiago, at 10:43 da tarde  

  • Nota: não sou contra a liberalização, sou contra os moldes em que foi aplicada.

    By Blogger Tiago, at 10:45 da tarde  

  • Já alinhavei a resposta mas vou colocá-la em post. Ficava muito grande para comentário. Não perdes pela demora :)

    By Blogger Tiago Alves, at 11:21 da tarde  

  • Hit me, baby!

    By Blogger Tiago, at 11:48 da tarde  

  • Tiago,

    Se as grandes superfícies praticam preços mais elevados é, obviamente, porque assim maximizam o lucro. Se é assim que maximizam o lucro, é porque as pessoas estão dispostas a comprar nos supermercados por preços mais elevados. E hão de ter boas razões para isso.

    Posso supor algumas:
    -É muito mais conveniente.
    -É mais anónimo que comprar na farmácia local. A vizinhança toda que está na fila não precisa de saber que tenho hemorroidas.

    By Blogger Manuel Câmara, at 12:26 da manhã  

  • - A conveniencia é relativo, talvez seja mais conveniente comprar a aspirina aquando das compras semanais, mas caso seja preciso um deslocamento propositado, muitas vezes a farmácia está mais perto.
    - Isso é verdade, mas a menina da caixa vai saber ihih (se for gira, entao, ainda pior eheh)

    By Blogger Tiago, at 1:05 da tarde  

  • Como pequena introdução, caro titas, peço que te apercebas da contradição destes teus dois comentários.

    "- Preferências do consumidor? Eu pensava que o consumidor queria um medicamento o mais barato possivel (para quando a venda a vulso?) e atendimento (se necessário) por um profissional com competencias superiores (/flamebait) - não se verifica nem um nem outro."

    "- A conveniencia é relativo, talvez seja mais conveniente comprar a aspirina aquando das compras semanais, mas caso seja preciso um deslocamento propositado, muitas vezes a farmácia está mais perto."

    =)

    By Blogger Tiago Alves, at 2:02 da tarde  

  • O ultimo comentário é um caso de excepção. A não ser q sejas um doente crónico que precisa SEMPRE de X doses semanais de um medicamento, nunca chegas ao ponto de ter que juntar um medicamento às compras semanais, só o compras quando precisas. (Ou então é como as lata de atum, tens sempre 4 ou 5 para aqueles dias em que não há tempo de fazer o almoço).

    By Blogger Tiago, at 4:32 da tarde  

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