segunda-feira, junho 19

À Luz do Microscópio

Inicia-se hoje a minha participação n’O Telescópio com a coluna À Luz do Microscópio (quem ler isto até pensa que sou uma apaixonada pela Histologia, o que não é propriamente o caso). É a primeira vez que escrevo um texto com dia marcado: não tenho por hábito escrever nas publicações da minha faculdade e o meu blog serve mais para parvoíces e catarse do que para escrever textos mais elaborados.

Uma vez que a educação tem sido o tema dos últimos dias, tanto nos blogs, como na imprensa, como nas mentes de milhares de jovens deste país, achei que seria interessante começar a minha colaboração com um texto sobre educação. Mas há um pequeno problema, a educação é demasiada vasta e complexa para ser abordado num só artigo e de ânimo leve. Há demasiados sub-temas que podem servir de tópico… E se falar de Bolonha? Bem, o tema já está tão batido que sobra pouco para dizer, especialmente quando muitas instituições ainda não definiram completamente o seu futuro (espero bem não dizer daqui a uns meses que Bolonha foi uma oportunidade desperdiçada mas, se calhar, estou a ser optimista). Também posso falar do Ensino da Saúde? Talvez seja melhor não, porque ainda começam a dizer que eu sou uma lobbyista (qualquer pessoa que não tenha uma visão demagógica do Ensino da Saúde é vista como tal) e mais uns quantos mimos geralmente bastante piores do que este. O Ensino Secundário português também daria um bom tema, não acham? Reformas sucessivas, as novelas das colocações dos professores, a falta de exigência (o exame nacional de Português no post abaixo é disso prova), as taxas de reprovação… Depois disto tudo, lembrei-me daquela história dos alunos portugueses “cabularem” muito.

Acho que qualquer pessoa que tenha andado no Ensino Superior (ou no Básico ou no Secundário) nos últimos anos sabe que existe plágio (há alguns anos, houve um ano na minha faculdade em que 75% dos trabalhos sobre um determinado tema foram plagiados e o ano inteiro responsabilizado), copianço e que as cábulas são rainhas. Mas porque será que o “cheating” está tão institucionalizado e não há ninguém que se oponha? Tenho de admitir que esta “ciência” me passa completamente ao lado: não a investigo, nem a utilizo e muito menos a percebo. Daí que me sinta curiosa.

Talvez seja o reflexo de uma sociedade demasiado relaxada e com alguma tendência para o “desenrascanço” em todas as situações. A verdade é que copiar não é visto como algo de errado (se alguém disser que roubou, a grande maioria das pessoas ficaria um pouco chocada, mas não o ficam com o uso das cábulas – é uma comparação um pouco extrema mas copiar não deixa de ser uma forma mais subtil de roubar) e quem copia até se gaba dos seus feitos e são vistos como “cool”.

De certa forma, a responsabilidade é de toda a sociedade devido à sua falta de seriedade no expoente máximo do “faz o que digo, mas não olhes para o que faço”, mas os principais culpados são os alunos e, em menor grau, os professores. Eu consigo ver num anfiteatro quem está a copiar, porque não consegue quem vigia os exames? Há histórias mirabolantes de alguém que está 3 filas atrás e do outro lado do anfiteatro conseguir copiar mesmo sem a colaboração de quem está à frente, ou de exames feitos em conjunto, ou de cábulas elaboradíssimas de pôr o James Bond de olhos em bico.

As instituições são também responsáveis. No ensino básico e secundário deveriam existir mais sanções a vários níveis (tanto académicos como disciplinares), porque é aí que tudo começa. Mas, ao nível do Ensino Superior, essas sanções deveriam ser verdadeiramente exemplares uma vez que são adultos e não crianças: os alunos apanhados a copiar ou a plagiar deveriam ser expulsos sem apelo nem agravo, à semelhança do que acontece noutros países. Porém, quem o faz continua alegremente a passar nos exames e ter boas notas nos trabalhos - com melhores resultados do que quem não copia em muitas situações.

Sem querer parecer o Velho do Restelo, não admira que estejamos aqui. As sociedades têm as elites que merecem e nada nesta sociedade parece mudar para uma cultura de meritocracia e de exigência. Enquanto assim for, teremos elites mal formadas a todos os níveis e um país mal formado a todos os níveis.

malta com binóculos

  • O que vale é que ainda há instituições sérias neste país.

    As sanções previstas na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa não compensam o risco de levar cábulas (na minha opinião) e não conheço ninguém que as leve ou tenha levado.

    By Blogger Inex, at 10:00 da manhã  

  • santa ingenuidade...tenh q dizer q em matéria d cábulas ou copianço (descarado!) não m parece q a FEUNL fique atr´s d qq outra instituição portuguesa...o problema é mm q fazer batota não é visto cm errado mas sim cm prova do engenho humano, da maravilhosa qualidade q é o desenrascanço e enquanto esta maneira d ver as coisas não mudar a situação vai continuar na mesma...

    By Blogger a_mais_linda, at 11:27 da manhã  

  • A mais_linda é daquelas que copia. O comentário denuncia-a. Seja como for, e apesar de as sanções serem pesadas, a questão coloca-se na vigilância ou mesmo na "coragem" de um professor para as aplicar.

    By Blogger Tiago Alves, at 11:36 da manhã  

  • Há pior!Os professores que dizem em pleno exame/frequencia que o aluno está a fazer bem ou mal uma pergunta. Isto lança 300.000 perguntas..como por exemplo:Porquê ajudar aquele aluno e não os outros?Que moral tem o professor para impedir alguem de copiar?O que é que o professor está no fundo ali a fazer?A ajudar os que conhece e lixar os que não conhece ou não gosta?

    By Anonymous Anónimo, at 3:31 da tarde  

  • olá sara e parabéns pelo teu primeiro artigo!

    só queria dizer uma coisa: um sistema não pode depender da moralidade dos seus agentes. os professores é que são responsavéis pelas regras e deviam saber aplicá-las.

    By Blogger Salvador, at 4:09 da manhã  

  • A iniciativa da coluna semanal, a la insurgente, é de louvar.
    Mas, se me permitem a critica, acho que é muito texto para dizer muito pouco.
    À luz do microscopio pressupoe um assunto analisado a promenor, em detalhe. Nao sei se seria esse o objectivo.
    No entanto, pode ser que na proxima semana se corrija o erro.. se é que foi um erro.

    By Blogger filipe, at 12:38 da manhã  

  • O nome veio de eu estar em medicina e o nome do blog ser telescópio. Simbiose de ambas. Mas realmente a ideia é boa...

    By Blogger Sara, at 3:35 da tarde  

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