sábado, maio 20

Ultra Arquitectura

A questão da revogação do 73/73, que concedia o direito à arquitectura a engenheiros e desenhadores técnicos, parece-me um pouco melindrosa. Se é razoável admitir que cada pessoa que necessite de um projecto arquitectónico tem o direito de escolher se pretende um arquitecto, um desenhador técnico ou um engenheiro, será também razoável que essa pessoa possa escolher um padeiro, um contabilista ou um técnico de farmácia? Talvez seja, assim haja oferta. Há duas ocasiões, porém, em que a regulamentação pode fazer sentido:

1) Quando as coisas em causa têm de passar pelo sistema público e este lhes impõe certas regras. Há licenças para conceder e fiscalizações para fazer, pelo que são necessários certos critérios para se poder decidir. Um desses critérios poderá ser a habilitação do responsável por qualquer parte de qualquer coisa. Assim, se o sistema público considera que apenas os arquitectos têm competência para elaborar certos projectos, isso é uma regra e, como tal, tem de ser cumprida.

2) Talvez haja muitas actividades que podem ser exercidas por qualificados num sem número de cursos e talvez a elaboração de projectos de arquitectura até seja uma delas. Num mercado privado, livre e concorrencial, a qualidade procurada e oferecida ajustam, levando a que todos aqueles com qualidade possam exercer a função que desejem, assim haja procura. Porém, quando um dos lados (a oferta ou a procura) é representado pelo Estado, fazem sentido algumas restrições: para impedir que apareça um engenheiro electrotécnico para me operar ou para evitar que, para realizar um estudo de impacte ambiental sobre a construção de um Parque Temático no Alentejo, se chame um biólogo marinho. Porque o Estado, ao agir em nome de todos nós, nunca poderá julgar como deveria (ou seja, contendo em si todas as opiniões e preferências) cada situação e cada agente, necessitando pois de balizas (que também se podem apelidar, caro AA, de bom senso).
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Por causa desta história estamos a assistir a uma das mais acesas "trocas de galhardetes" entre blasfemos e insurgentes. Inesperado? Talvez, mas nada comparado com o facto de ser um dos ultras o principal defensor da revogação, enquanto que os aparentes moderados enveredaram por um caminho bem mais radical.

malta com binóculos

  • Tiago, desculpa dizer-te isto, mas acho que se de vez em quando deixasses a perspectiva económica e pensasses um bocadinho de uma forma menos tabelada eras capaz de chegar a resultados se calhar mais interessantes.
    Não vejas a questão do 73/73 (o que eu ouvi falar dele no secundário!) como uma questão de oferta e procura pq depois chegas a coclusões fantásticas de que um padeiro podia fazer o projecto de uma casa, bastando para isso o mercado aceitar isso. Porque não pensas que há uns tipos que andam na faculdade a estudar para saberem desenhar casas decentemente e depois vêem o seu trabalho feito por pessoas sem essas qualificações, alguns até não formados. É a tal coisa fantástica que acontece com o nosso ensino, quando temos engenheiros químicos a ensinarem matemática. Não achas que quem estudou para ser professor de matemático se sente revoltado com esta situação? É que, acima de tudo, é um desrespeito por esse conhecimento, que alguns estudam para o ter, e outros pensam tê-lo. Se calhar, por termos desenhadores a fazerem de arquitectos, é que volta e meia aparecem certas bizarrias pela nossas ruas, tal como aparecem uns miúdos sem saberem a tabuada porque o professor não a soube ensinar. É uma questão de bom senso, acho eu!

    By Blogger JP, at 12:30 da manhã  

  • Jota, desculpa dizer-te isto, mas acho se tivesses lido o texto com atenção verias que pouco do que disseste é oposto ao que eu disse.

    Mas sim, acho que, caso o mercado privado (PRIVADO!) aceite um padeiro a fazer um projecto, então porque não? Quando temos agentes públicos, já não concordo, e foi isso que escrevi no post e tu apoiaste, ao dar o exemplo do ensino. Como vês, não estamos assim tão em desacordo.

    Talvez só estejamos meso aqui: se uns têm o conhecimento e outros julgam tê-lo (e não o têm, penso que é isso que queres dizer), podes ter a certeza de que o mercado tomará isso em consideração ;)

    Não é um desrespeito. Desrespeito pelos consumidores é obrigá-los a escolher o sr. X (licenciado e membro da ordem) quando eles consideram que o sr. Y ("free-lancer" e não membro) oferece uma melhor relação custo-benefício.

    By Blogger Tiago Alves, at 9:51 da manhã  

  • Eu posso ir a um médico PRIVADO para arrancar um dente. Em vez de um dentista aparece-me um mecânico, só que ele faz a cena 10x mais barato. Achas bem que ele o possa fazer? Eu não!
    Se um desenhador aparecer a um PRIVADO para ele desenhar uma casa 100x mais barata que o prsço do Siza, achas bem que ele a fizesse? Eu não!
    Se um engenheiro químico for aceite para dar aulas num colégio PRIVADO, achas bem que ele seja preferido a um professor só porque ganharia menos? Eu não!
    Isso de ser o Estado ou os privados não muda nada do que eu acho, porque para mim não muda grande coisa. Eu acho é que as pessoas que estudaram para ser uma coisa não podem ser defraudadas ao verem outros, desqualificados, a fazerem o que elas fariam, só porque o fazem mais barato. É uma questão de bom senso, se são tão bons a desenharem casas então porque não são arquitectos em vez de meros desenhadores? Se são tão bons professores, então porque não tiram um curso de professor para ficarem habilitados a serem-no?
    Já devias saber que a qualificação e a qualidade pagam-se (já que de mediocridade estamos todos fartos!), e é por isso que os custos-benefícios não existem em tudo o que mexe Tiago, e às vezes, tal como eu disse, tens de afastar um bocado o que te ensinam na NOVA para ires mais ao nível geral. Desrespeito pelos consumidores é deixarem-nos contratar um desenhador e depois o tecto cair-lhes em cima da cabeça. É que depois vêem todos queixarem-se porque o Estado deixa desenhadores projectarem o que deviam ser arquitectos a fazer, mas foram eles que quiseram não foram? E não precisamos de ser tão trágicos, basta dar uma olhadela pelas nossas terreolas e ver alguns atentados que se fazem por aí. Valeu-lhes de muito o custo-benefício...

    By Blogger JP, at 1:47 da manhã  

  • Não acho que o ensinado na NOVA me cegue, pelo contrario.. Acho que até me afasto bastante de alguns "dogmas". Concordo perfeitamente que não aches bem tudo o que dizes no início; não posso porém concordar que devesse ser obrgatório que ninguém concorde! Isso tem um nome e chama-se totalitarismo.

    Outra coisa prende-se com a definição de qualificados. Se consideras que alguém qualificado tem de ter um curso, muito bem. Como tu pensa uma boa parte (senão a esmagadora maioria) dos cidadãos. Porém, não entendo porque é que a (suposta) minoria para quem é preferível contratar um não licenciado mais barato não o pode fazer!

    Não é um desrespeito pelos consumidores deixá-los decidir quem eles querem que lhes preste determinado serviço. Chama-se liberdade. No final falas dos atentados nas terreolas, o que cai nas minhas excepções: inclui o agente Estado, onde defendi que é necessária regulação.

    Mais uma vez, se leres bem, até não estamos assim tão em desacordo. Outra coisa: não devemos deixar que o nosso compromisso com determinado assunto nos tolde a visão e enviese o pensamento.

    By Blogger Tiago Alves, at 1:08 da tarde  

  • Então, quanto às terreolas o que devia o Estado fazer? O que entendes por "regulação"? Uma "Comissão para o Bom Gosto" que diria o que é bonito ou não? Eu até preferia, só que acho que quem prefere ter um chalêt com tecto em bico por causa da neve em pleno monte alentejano é que não ia gostar da ideia!

    By Blogger JP, at 9:01 da tarde  

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