domingo, abril 30

Velhos tempos, ou a liberdade perdida*

De acordo com os reguladores e burocratas de hoje, todos nós que nascemos nos anos 60, 70 e princípio de 80 não devíamos ter sobrevivido até hoje, porque as nossas caminhas de bebé eram pintadas com cores bonitas em tinta à base de chumbo que nós muitas vezes lambíamos e mordíamos. Não tínhamos frascos de medicamento com tampas "à prova de crianças" ou fechos nos armários e podíamos brincar com as panelas. Quando andávamos de bicicleta, não usávamos capacetes. Quando éramos pequenos viajávamos em carros sem cintos e airbags - viajar à frente era um bónus.

Bebíamos água da mangueira do jardim e não da garrafa e sabia bem. Comíamos batatas fritas, pão com manteiga e bebíamos gasosa com açúcar, mas nunca engordávamos porque estávamos sempre a brincar lá fora. Partilhávamos garrafas e copos com os amigos e nunca morremos disso. Passávamos horas a fazer carrinhos de rolamentos e depois andávamos a grande velocidade pelo monte abaixo, para só depois nos lembrarmos que esquecemos de montar uns travões. Depois de acabarmos num silvado aprendíamos.

Saímos de casa de manhã e brincávamos o dia todo, desde que estivéssemos em casa antes de escurecer. Estávamos incontactáveis e ninguém se importava com isso. Não tínhamos PlayStation, XBox. Nada de 40 canais de televisão, jogos de vídeo, home cinema, telemóveis,computadores, DVD, Chat na Internet. Tínhamos amigos e se os quiséssemos encontrar íamos á rua. Jogávamos ao elástico e à barra e à bola, até doía! Caíamos das arvores, cortávamo-nos, e até partíamos ossos mas sempre sem processos em tribunal. Havia lutas com punhos mas sem sermos processados. Batíamos às portas de vizinhos e fugíamos e tínhamos mesmo medo de sermos apanhados. Íamos a pé para casa dos amigos. Acreditem ou não, íamos a pé para a escola; não esperávamos que a mamã ou o papá nos levassem. Criávamos jogos com paus e bolas. Se infringíssemos a lei era impensável os nossos pais nos safarem, pois eles estavam do lado da lei.

Esta geração produziu os melhores inventores e desenrascados de sempre. Os últimos 50 anos têm sido uma explosão de inovação e ideias novas. Tínhamos liberdade, fracasso, sucesso e responsabilidade e aprendemos a lidar com tudo. És um deles? Parabéns!

Passa esta mensagem a outros que tiveram a sorte de crescer como verdadeiras crianças, antes dos advogados e governos regularem as nossas vidas, "para nosso bem". Para todos os outros que não têm idade suficiente pensei que gostassem de ler acerca de nós.

*recebido por e-mail

malta com binóculos

  • Fiquei desiludido por não ser um original teu, porque iria sem dúvida ser para mim o melhor texto alguma vez escrito neste blog!
    Não tive a felicidade de poder fazer tudo o que falam aqui neste texto, paus e lutas nunca foi o meu género, mas a parte das playstations e dos 40 canais percebo perfeitamente, talvez porque não os tive e hoje, em conversas com os meus colegas, percebo porque é que os meus pais me preferiam dar livros! Não ia brincar para a rua com os meus amigos, porque não havia amigos, mas para uma pessoa como eu, que volta e meia trabalha com crianças, percebo que os putos estão cada vez mais cagões, têm cada vez mais medos e são cada vez mais esquisitinhos!

    By Blogger JP, at 3:16 da tarde  

  • Já tinha recebido esse e-mail, mas é sempre bom recordar.. apesar de não me poder incluir na faixa etária descrita, fiz todas essas coisas (se calhar por esta zona essas modernices demoravam um bocado a chegar), e sinto que sempre fui uma criança feliz!
    Parti ossos a andar de carrinhos de rolamentos, andei à luta sem nunca ir a tribunal (e cheguei a partir uns dentes a um), saía de casa mal os meus pais iam trabalhar e só voltava, apesar do que diz no texto, para jantar, pois regressava novamente para a rua até não aguentar mais. Desenhar na parede era proibído (e a própria polícia tratou de nos ensinar à sua maneira, então pintar no alcatrão era diversão diária, principalmente quando chovia e apagava-se tudo, tendo que se desenhar novamente..
    Quando aos miudos de hj, não sei o que dizer, mas a todos os que possibilitaram a nossa magnífica infância, MUITO OBRIGADO!

    By Blogger Quicker, at 4:57 da tarde  

  • Eu temia que o texto descambasse num rant à "geração morangos com açucar" e as tretas do costume. Felizmente não aconteceu, uff.

    Mesmo assim gostaria só de salientar o facto de a mortalidade infantil e juvenil ter decrescido continuamente até hoje. Talvez a proíbição das tintas à base de chumbo e as tampas "à prova de crianças" tenham alguma coisa a ver com isso.

    Assinado:
    -Indivíduo avesso ao risco que cresceu a jogar NES e exercítou em pavilhões, não em baloiços improvisádos e em carrinhos de rolamentos ao pé de precipícios.

    By Blogger Manuel Câmara, at 2:48 da tarde  

  • Não sou do principio de 80 e sou um deles. Até porque tenho mesmo de ser. Na minha altura um telémovel ou uma consola era coisa de ricos. Quanto ao airbag no carro ainda hoje ando num que não tem e em criança andava todos os fins de semana num carro sem cintos de segurança atrás. E não só bebia água da mangueira como também tomava banho dela. Falta referir os cartuchos e canudos, a doença pelos tazos da matutano, os banhos no tanque, ou apanhar uma rã para depois quando a soltassemos novamente podermos ouvir as outras a "agradecer". Já para não falar no berlinde, peão ou até na caderneta dos cromos da bola. Mas não alinho em textos do tipo "no meu tempo é que era", essa barreira não tem sentido. Senão o que hão de dizer as pessoas mais velhas em relação à malta que nasceu em 70as e 80as?! Provavelmente: "No meu tempo é que era... jogavamos descalcos e as bolas eram meias enroladas". Não tem sentido, o que interessa é que cada um se orgulhe da sua infancia e a tenha aproveitado ao máximo. Eu cá continuo a tentar aproveitar a minha infancia ao máximo, para mais tarde continuar a sorrir quando penso nela.

    By Anonymous kimas, at 9:38 da tarde  

  • Nossa! depois de ler essa mensagem pude sem dúvida alguma voltar lá nos meus pegas de carrinho de rolamã, dos meus piques na rua e minhas peladas,kkkk. Quantas saudades! quem viveu aqueles anos sabe muito bem doque estou teclando. Foi muito bom ter me lembrado disso, estava até pensando: parece que não vivi nada aínda. Pra mim, agora, acho que nasci em outro mundo. Saudades!

    By Anonymous Marcos, at 3:59 da tarde  

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