terça-feira, abril 18

A matança de Lisboa (1506-2006) (I)

Há quem diga que Portugal está em crise há 200 anos, desde que deixaram de chegar à metrópole os carregamentos de ouro do Brasil. Eu arriscaria a ir mais longe. A crise nacional pode ter começado há 500 anos, decorrente das consequências daqueles três dias sangrentos de Abril de 1506. No dia 19 de Abril, há 500 anos atrás, experimentava-se um periodo de seca e fome, de peste e morte. Como sempre acontece nestas ocasiões, os ódios e as raivas andavam à solta pelo país. Vivia-se uma época de intolerância religiosa, com as conversões forçadas de judeus ao Cristianismo (os chamados cristãos-novos) ainda frescas na memória.

Rezam as crónicas da época, com algumas diferenças de pormenor, que se clamou milagre numa Igreja de Lisboa, ao se ver iluminada a face de Cristo na cruz. No dia ou alguns dias depois, parece que um cristão novo teve a imprudência de dizer que tudo lhe parecia ilusão; que tal impressão era um efeito de luz. Perante a excitação, e incitados pelos frades, a multidão arrastou o homem para a rua e logo ali o matou, por entre gritos de heresia. Não satisfeitos, e com os frades à cabeça, levantando a cruz, lançaram-se pelas ruas de Lisboa matando cada cristão novo que encontravam, assaltando-lhes as casas e roubando-lhes os bens. Conta-se que nos quatro dias seguintes foram assassinadas perto de quatro mil pessoas.

(continua)

malta com binóculos

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