domingo, abril 2

A eternidade por um presente

O suplemento WEEKend do Jornal de Negócios desta sexta faz dos blogues tema de capa. Com o título "BLOGS a eternidade no mundo virtual", traz um texto de aproximadamente uma página, assinado por Carla Pedro. Sensivelmente no final do primeiro terço, e depois de uma análise geral, a jornalista fala-nos de episódios de mortes de bloggers. Do desaparecimento da Joana e do seu Semiramis, do prolongamento do Veneno Eficaz depois da morte do Fernando e do caso do Hélder, menos conhecido, que deixou no seu blogue os últimos escritos antes do suicídio.

São casos que chocaram algumas pessoas e que podem fazer pensar. Porém, utilizá-los para concluir que "[a perpetuidade e o além-morte] é o fenómeno mais incrível dos blogues" é uma coisa inqualificável. Com efeito, o restante texto gravita em redor deste argumento. Considera que "os amigos, a família (...) gostam que os blogues se mantenham de pé para poderem ler e reler os textos da pessoa enquanto viva, para poderem deixar um beijo, como que num eterno velório virtual". No final, afirma-se que "é por isto que os bloguistas escrevem. É na escrita que se eternizarão."

Apresento-me como contra exemplo. Eu não acho que se deva dar mais importância a um incerto futuro do que ao palpável agora. No que toca a'O Telescópio, jamais me passou pela cabeça de que um dia a sua função pudesse ser a de me recordar, depois de morto, através dos meus textos. Tenho como horizonte o curto prazo, sendo que o meu longo prazo começa onde a neblina da incerteza me tolda a visão.

O Telescópio é um local onde escrevo por gozo. Onde me faço ler e onde espero ser visitado e comentado agora, enquanto estou vivinho e cheio de energia. O amanhã é ele próprio longe demais. Quero fazer coisas e saber o seu resultado. Quero mostrar-me e ser reconhecido enquanto o possa saber. A eternidade, para mim, não passa de um conceito abstracto que perde todo o valor quando comparado com o presente; com o aqui e o agora.

"Each day is a gift. That's why we call it the present"

malta com binóculos

  • Heyyyy essa frase está na moldura dos ursinhos que está na cabeceira da minha cama! Seu roubador de frases giras dos outros! :P
    Concordo quase tudo contigo. Isto é, realmente não faz muito sentido que a jornalista generalize o objectivo dos blogues a um "testemunho de vida que permanece para além da morte". No geral não é por isso que as pessoas escrevem.
    No entanto, não é de todo mal pensado que seja eventualmente esse um dos seus propósitos do futuro.
    Quem sabe, daqui a uns 50 anos (vá lá pronto ainda não morreste nessa altura) não estarás tu e outros tantos(os teus fãs!!) a admirar o belo trabalho de um passado que não se esquece muito por culpa das palavras escritas no nosso presente. E isso também é um presente que nos dás todos os dias =)

    By Anonymous anachina, at 12:08 da manhã  

  • Porque jamais devemos deixar para o pós-morte aquilo que devemos dizer em dia...

    Obrigado.
    Pelo excelente trabalho desenvolvido nesta minúscula janelinha, que centenas admiram.
    Por seres o amigo certo nos momentos importantes.

    By Anonymous Vânia, at 12:58 da tarde  

  • A Rainha da Sucata


    Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não... – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

    Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
    Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
    Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

    É óbvio que em todos os jornais, como em todos os "blogues", como em todos os programas de televisão de carácter rasca, -- terríveis eixos do mal --, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
    “Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

    Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
    Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

    Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

    É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

    Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

    Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

    Muito obrigado.”

    By Blogger Arrebenta, at 3:40 da manhã  

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