segunda-feira, março 27

Apologia do CPE (IV)

Diz o caro Jota que "quem é bom não tem de se preocupar porque para esses haverá sempre emprego. O chato é que nem todos nasceram para ser bons".

Para responder e dar o tema como encerrado (já vou no quarto post), uma "pequena" história:

O Henrique e o António José saíram agora da escola e querem ir para o mercado de trabalho. Não interessa se saíram da Faculdade ou do 12º ano. Querem ir para o mercado de trabalho e pronto. O Henrique, inteligente e estudioso, consegue apresentar-se diante de uma empresa com uma melhor carta de recomendações que o António José. Este último, embora teoricamente menos qualificado, é um tipo mais metódico e que se adapta melhor ao trabalho de gabinete, enquanto o Henrique é mais homem de campo.

Uma empresa precisa de alguém para ambos os cargos mas a economia está estagnada. As expectativas são baixas e a contratação de um jovem envolve riscos inerentes à falta de experiência e baixas expectativas de performance. Além disso, ainda torna a empresa refém de um salário mínimo, de descontos de 23.75% para a segurança social e do compromisso de manter o jovem na empresa durante um determinado periodo de tempo.

A empresa só abre então uma vaga: para o lugar administrativo. Os dois jovens concorrem e o Henrique é o escolhido. Porém, rapidamente se desilude, assim como o seu novo chefe. O Henrique passa o dia entre quatro paredes a olhar lá para fora e o chefe do Henrique desespera de cada vez que um relatório de progresso não é entregue a horas. Ambos percebem que fizeram uma má escolha mas o contrato é rígido. Não há possibilidade de ajustamentos que beneficiem ambos.

Com um periodo de experiência mais alargado, duas coisas podiam acontecer.
1) A empresa abria não uma mas duas vagas. Dado que a qualquer momento, por via de uma fraca adequação empregado-empregador, a empresa pode despedir o funcionário, está mais disposta a arriscar e a procurar mais trabalho.
2) A empresa até podia abrir na mesma só uma das vagas mas rapidamente o Henrique era despedido e, provavelmente, contratar-se-ia o menos bom António José ou outro alguém que estivesse desempregado. O Henrique passaria de novo a ser um desempregado friccional, isto é, à procura de um emprego que melhor se adequasse às suas pretensões e capacidades.

A definição de bom e mau é algo muito vago. Talvez fosse melhor distinguir os mais aptos dos menos aptos para determinada função. Com a hipótese (realista) de que o menos apto aqui poderá ser o mais apto ali E aqui o CPE, assim como quaisquer outras medidas liberalizadoras do mercado de trabalho, é uma mais valia.

malta com binóculos

  • Pois é... mas deixa-me acrescentar uns pontos à história:
    O magnífico CPE foi aprovado, e por isso a empresa emprega o António e o Henrique. O primeiro, já com namorada e a prepara-se para juntar os trapinhos, adapta-se facilmente, enquanto o segundo não se aguenta, e pouco mais tarde é despedido. Acontece que nem o Henrique despedido nem o António empregado podem planear a sua vida, pois só aos 26 é que poderão estar seguros. Só aos 26 é que os bancos lhes facilitarão um empréstimo para ter uma casinha, seja um T0 para o Henrique seja um T2 para o António. Só a partir dos 26 é que poderão pensar numa viagenzita, porque nunca se sabe se no dia seguinte o patrão não se farta e os põe na rua. Eles até estavam a pensar tirar um mestrado, mas como os pais não lhos poderiam pagar, esse projecto, de enorme interesse não só para eles como para o país, ficará para depois dos 26 anos, já que um mestrado ainda é caro e até aos 26 há que poupar porque nunca se sabe...
    Tiaguinho, dramatizar é fácil, então se fôr para sustentar o nosso ponto de vista ainda melhor!

    By Blogger JP, at 10:15 da tarde  

  • Caro Tiago

    A argumentação é inatacável; mas penso que as preocupação relativas ao CPE não se relacionam com os ganhos de eficiência em que ele se possa traduzir.

    Com isto não estou a tentar invalidar o que disseste (até porque sou a favor do CPE) mas sim a alertar para a impossibilidade de vermos este tipo de problemas numa lógica de mera eficiência de mercados, FPP, produtividade, vantagens comparativas, etc.

    By Blogger pedroromano, at 1:45 da manhã  

  • Caros,

    talvez não e talvez o JP tenha a sua razão ao trazer para a discussão estes certos factores que escapam aos graficos macro. Mas esse risco, embora possa ser menor, existe sempre.. com ou sem CPE..

    By Blogger Tiago Alves, at 1:27 da tarde  

  • Bem desde que vi as manifestações de hoje em França a questão que se coloca para mim já é outra. Será que pessoas capazes de atitudes tão selvagens como as que mostram na televisão merecem ter emprego?
    Francamente...
    (eu sei que este comentário é um pouco extremista mas acabei de ver os coitados dos repórteres da RTP1 a serem agredidos por um bando de manifestantes o que não me parece nada bem!)

    By Anonymous anachina, at 9:45 da tarde  

  • Mais um bom texto!

    Ao JP gostaria de apontar que em países onde existe maior "precaridade" que a França, não deixa de haver mercado para os créditos pessoais.

    É muito fácil fazer análises catastrofistas, mas aumentar a rigidez dos mercados apenas leva a que surjam fissuras ou rachas quando pelo seu peso têm de se ajustar.

    Hoje sairam mais notícias a propósito do sobreendividamento das famílias. Uma forma de explicar esse fenómeno tão aparentemente irresponsável (e que segundo os capitalistas demonstra a irresponsabilidade de mercado) é o excesso de garantias. Nada contra, desde que sejam ganhas por sorte ou trabalho. Mas por imposição legal todos saimos prejudicados.

    By Blogger AA, at 9:52 da manhã  

  • Tiago Alves devo-te dizer que eu trabalho à 6 anos e nunca me preocupei muito com a precaridade do emprego e já mudei(por minha opção) aí umas 4 ou 5 vezes, e mudarei se não me sentir totalmente realizado onde estiver.

    O CPE têm os seus prós e os seus contras, sendo que em França a mentalidade dos empregadores deve ser mais evoluída que a dos nossos que têm uma visão meramente virada com os ganhos no imediato, porvindo daí uma maior facilidade de introdução no mercado de uma medida mais drástica do que seria por exemplo aqui em Portugal.

    Um Abraço,

    Pedro Gonçalves.

    By Blogger Pete, at 10:55 da manhã  

  • Felizemente jà não existe. Afinal as nossas manifestações deram resultado!^^

    Mayb3-L0n3.blogspot.com

    By Blogger M, at 6:54 da tarde  

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