sábado, outubro 1

eu sou anti fumo! serei anti-liberal? II

A segunda questão prende-se com o mercado. Eu também adoro o mercado, eu também acho que o mercado, quando bem alimentado, é o melhor garante de que chegaremos ao equilíbrio e maximizaremos os nossos excedentes. No entanto, a convicção de que, por exemplo, um não fumador, guiado por uma qualquer mão invisível, prefira uma pastelaria por esta proibir o fumo, criar uma zona para não fumadores ou possuir um bom extractor não é por mim partilhada. O facto de uma pastelaria permitir o fumo ou não é apenas mais um dos factores que influencia a escolha da mesma, lado a lado com a qualidade do café, a simpatia do dono, localização etc. Não creio que um não fumador não obsessivo dê uma maior ponderação à existência (ou não) de fumo. O factor amizade também pesa, sendo que todos nós hoje e sempre teremos amigos que fumam, e também não deixaremos de ir ao café com eles por isso. É por isto que a tal delimitação voluntária não funciona na maioria dos locais. Se num grupo um não é fumador sujeitar-se-á à escolha dos amigos e "fumará" com eles. Mas num grupo de não fumadores basta um fumador para se preferir um espaço de fumadores. É por isso que uma pastelaria não se pode orgulhar de proibir o fumo, de criar zonas especiais, de investir num bom extractor de fumo pois isso não lhe granjeará novos clientes em número suficiente para suprir aqueles que perderá.

Acho que este mercado precisa de um empurrãozinho. E o empurrãozinho seria colocar todos na mesma situação. Tendo em conta também o primeiro argumento que aqui utilizei, eu apoio a proibição de fumo neste tipo de locais. Porque uniformizaria e porque estamos, afinal, a falar da saúde das pessoas. Claro que toda a gente tem o direito de tratar da sua saúde como melhor lhe aprouver, mas numa comparação radical retiraríamos os apoios a milhares de toxicodependentes e não seriam os nossos euros a pagar os tratamentos dos milhares de enfermos do pulmão e da laringe, vítimas da sua escolha individual informada. Esta última palavra é importante. Acho o verdadeiror liberal reconhece quando deve pedir uma ajudinha ao Estado.
Tiago Alves

malta com binóculos

  • Tiago, é preciso uma nota adicional:

    Também eu sou anti-fumo. Afecta-me profundamente. Em criança porque tinha indícios de broquite asmática. Doses cavalares de desporto supriram essa fragilidade, agora são os meus olhos que não aguentam por falta de lubrificação. Por isso selecciono agressivamente sítios mais limpos, com esplanadas, o copo "no alcatrão", a varanda do Lux. Quando surgiram as primeiras notícias das proibições, dei um salto. Era a oportunidade de eu poder fazer mais coisas sem voltar para casa com os olhos a arder e a roupa a tresandar (se calhar até escrevi sobre isso!). Eu, eu, eu. Mas acabei por analisar a coisa de outro ponto de vista: por eu ser legitimamente esquisito, não quer dizer que tenha de pedir ao Estado que proiba quem não se conforma com as minhas noções saudaveizinhas...

    Não reclamo uma visão "correctamente liberal". Mas cá vamos. É por eu não ter a certeza do que é bom para os outros que não acho que deva limitar as suas liberdades. Nem acredito que haja quem tenha essa legitimidade por mim. Acredito na livre organização do mercado, na concorrência e na cooperação. Eu prefiro espaços limpos e sou chato o suficiente com os meus amigos para que me protejam na medida do possível. Não quero que o Estado me "proteja", caso contrário um dia vou ter que beber os meus amados Havana Anejo ou Captain Morgan às escondidas. Sobretudo acredito no mercado ao ponto de preferir que funcione mal mas voluntariamente, a mal e coercivamente por intervenção administrativa do Estado.

    Hoje em dia há uma tendência para os hábitos saudáveis, e nada disso foi obra do Estado. Ninguém é obrigado a ir ao ginásio, comer vegetariano ou low-fat, ter cuidados com o sol que apanha, cuidar do colesterol e tensão alta, etc. Se há vinte anos um ambiente com boa extracção de fumo era a excepção (por ser cara), hoje vulgarizou-se. Isto está cá para ficar, porque as pessoas valorizam mais a sua saúde. O mercado acompanhou o gosto e exigências dos consumidores. O restaurante a que eu vou daqui a pouco é livre de fumo porque assim é pedido pelos donos, e assim eu gosto dele. Mas poderia descer umas ruas e meter-me no Cabaças e pedir umas febras temperadas a tabaco mata-ratos. Com uma proibição, esse meu gosto castiço ser-me-ia vedado.

    Eu consideraria pedir uma ajuda ao Estado se julgasse que os meus direitos estivessem a ser atropelados -- nomeadamente se se fumasse nos tais sítios "obrigatórios", que têm de ser tão abrangentes quanto possível, tarefa nada fácil...

    Quanto à visão dos custos de saúde serem suportados por quem deles usufrui, isso não cabe num comentário... :)
    Bastará dizer que essa é a discussão que interessa.

    Mas é preciso ter cuidado: a uniformização não é liberal. A igualdade de condições de chegada não é um valor liberal. Se eu não posso ser a excepção, mesmo que não prejudique os outros, ou com as sua total e voluntária anuência, não tenho Liberdade (vale a pena ler, sobre isto, o On liberty do John Stuart Mill)... o que não quer dizer que não sinta a responsabilidade de combater a praga do tabagismo.

    Um abraço,

    António

    Nota final: não há incoerência nas posições em ser anti-tabaco e liberal. Também sou anti-Aborto e considero-me liberal... :/

    By Blogger AA, at 9:22 da tarde  

  • Acho que consegui perceber, António. Continuo com algumas reservas no que toca ao mercado relativamente aos cafes e afins (talvez por ser a "parte que me toca"); concordo consigo quanto ao ser preferivel o mercado funcionar mal mas voluntariamente do que mal por intervenção estatal mas não posso deixar cair o tal argumento de aquele ser o local de trabalho, pelo que afinal a lei tambem se deveria aplicar ali, assim fossem as pastelarias consideradas primeiramente um local de trabalho e depois um local de lazer.

    Diz que concorda com as proibições "voluntárias", a mando dos donos privados mas tambem deve concordar que isso é quase um suicidio comercial. Tal como eu havia dito, bastará provavelmente um no grupo fumar para cinco não fumadores não obsessivos caírem no café onde se fuma à vontade. E estamos a falar de saúde não é? Estamos a falar de uma malefício provado e suportado por diversos estudos que afecta não só quem o pratica mas também os que o rodeiam. Vou usar de novo a comparação radical, espero não de forma errada. As vacinas são obrigatórias. O Estado está em campo, comparticipa e não deixa ninguém andar na escola se não tiver as mesmas em dia. Não sei se será comparável este e outros tantos exemplos similares mas se não for, no seu ponto de vista, diga-me! :)

    "É por eu não ter a certeza do que é bom para os outros que não acho que deva limitar as suas liberdades", escreve o António no seu comentário. Não sei se neste caso não podemos, de facto, saber o que é melhor para eles, assim como sabemos que as vacinas são boas para evitar que certas doenças nos afectem. Estou aqui a pensar e se calhar encontrei já um factor diferente. Não escolhemos ficar doentes, mas escolhemos fumar.. Mas assim posso pegar outra vez no exemplo da toxicodependencia. Eles escolheram esse malefício, e o seu consumo está proibido e punido por lei, além de que muitos dos nossos euros dos impostos se destinam àqueles mega programas de reintegração de toxicodependentes. Receio estar a parecer um pouco radical mas gostava mesmo de chegar a alguma conclusão.

    Já agora, numa nota final, não acho que tenha sido veemente. Espero que também não ache o mesmo do meu comentário. Quanto ao aborto, já fui decididamente a favor, já passei pela versão da Filipa do E Depois do Adeus de que o Estado não tem nada com isso e agora ando pendido para o dogma (sem conotação negativa) de que "É proibido matar um semelhante". Mas acredito que a minha deriva ideológica ainda pode continuar. Qualquer dia discutiremos isto. Dia 18, por exemplo x)

    um abraço e obrigado pela paciencia

    By Blogger Tiago Alves, at 12:28 da tarde  

  • Neste momento em http://abanacao.blogspot.com/ estão disponíveis dois inquéritos que pretendem (de alguma forma) intervir na Consulta Pública sobre a proposta de Legislação antitabágica que o Governo apresentou. O que é também uma forma de participação cívica, para que outros não determinem autocraticamente aquilo que também nos diz respeito.

    MFR

    By Blogger Manoel das Couves, at 1:56 da manhã  

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